sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

SSOTBME

    Ok, eu sei que já faz um tempinho que eu não posto nada, mas nesses dias eu abria meu notebook para traduzir o livro e ficava exatamente assim: 



    Os próximos dois livros já estão em português, então as próximas resenhas vão sair mais rápido.

    O livro de hoje é SSOTBME, de Ramsey Dukes, um carinha que vocês vão ouvir falar muito nesse blog, considerando que ele é um dos meus autores favoritos e, ao meu ver um dos mais revolucionários também. Só que vamos começar do começo. Lionel Snell, ou Ramsey Dukes, ou também Lemuel Johnston é um autor e filósofo formado em Matemática pela Universidade de Cambridge. Seus livros mais notáveis são o SSOTBME (Os Segredos Sexuais do Mago Negro), O Pequeno Livro de Demônios do Tio Ramsey e Como ver Fadas (infelizmente não, esse livro não é sobre alucinógenos haha). Honestamente, quando conheci o autor, não dava nada, considerando que achei esses títulos meio sensacionalistas. Mas não julgue o livro pela capa, já que ele faz basicamente um click bait com seus títulos. Dukes pega os conceitos de Spare, mas acrescenta uma boa parte filosófica e acaba se tornando um dos mais importantes nomes da magia do Caos. Você perceberá a sua influência principalmente em livros como Psiconauta e Prime Chaos. Particularmente achei que Phil Hine tentou dar uma resumida nos conceitos de Ramsey, com seu toque pessoal, mas se perde muita coisa importante da teoria.

    SSOTBME é diferente dos livros que escrevi até agora. É aquele tipo de leitura fora de série, quando você termina, ainda fica uns 15 minutos olhando pro nada, só tentando absorver o que foi dito. Já te adianto para não esperar nenhum exercício prático, mas um conteúdo filosófico sem igual, com direito a reflexões sobre o "eu" e a sociedade. 

    O primeiro capítulo vem com uma análise de como muitas vezes reprimimos o "mago" que existe em nós em prol do "senso comum" e a "racionalidade', ou seja, somos condicionados a escolher experiência comum ao invés da nossa própria, por mais despersonificadas que sejam. Ramsey observa que conviver em uma sociedade extremamente científica pode ser opressiva, já que somos treinados a ignorar nossos instintos desde criança. Lembro bem de quando tinha por volta dos quatro anos e do terror que era ir na casa da minha avó, por causa de terríveis silhuetas misteriosas que via, não uma ou duas vezes, mas sempre que a visitava. Não importa o quanto tentava investigar as causa, nunca achava uma solução plausível. Até que um dia criei coragem e contei para a minha família, que se dividiram em duas opiniões; ou eu era mentirosa, ou louca. Era inconcebível para o pensamento racional deles aceitar que uma criança ignorante"vê" coisas imateriais -ou que eles não conseguiriam ver-. Então depois de muito tempo tentando me convencer, finalmente aprendi que eu estava mentindo e que aquelas silhuetas eram só minha fértil imaginação. Com o tempo negando a existência delas, aos poucos parei de vê-las. Nesse caso o pensamento científico negou o desconhecido até que ele fosse excluído.

    Depois de Dukes nos dar o gostinho do que estava por vir, ele nos apresenta o conceito de Cientista-Religioso-Artista-Mago, que são quatro facetas que existem em cada um de nós. Gosto de pensar que são nossos divertidamente haha. O artista floresce na primeira infância, e ele engloba nosso senso estético, nossa intuição, criatividade e imaginação. Na pré adolescência, o religioso ganha espaço, é a parte da moral, socialização, e fé. Logo depois, na adolescência o cientista se desenvolve e com ele a lógica, a racionalidade, crença condicional e a verdade absoluta. Finalmente vem a juventude do mago, que é responsável pela observação, crença incondicional, auto conhecimento e no relativismo. É basicamente aquela fase em que você olha pro abismo e ele te olha de volta e ainda diz "e aí meu mano" .

    Todos possuímos essas qualidades, mas uma delas sempre se sobressai, virando um traço marcante em nossa personalidade. Como quando um crente vai para o hospital, se medica e melhora. Ele acha que foi deus que soprou no ouvido do médico a cura para sua doença, não o tempo de estudo prévio que o médico teve. Nesse caso, o pensamento religioso predominante, faz com que o científico ache uma resposta plausível, de acordo com os parâmetros de sua forte religiosidade. Assim como se um físico visse uma bruxa se curando através de uma série de rituais, com suas plantas e seres mágicos. O físico diria que inicialmente a doença era psicossomática, e por aí vai.

    Outro capítulo interessante é o 3A, que focado em ciclos, que talvez você se familiarize com Æons ou paradigmas. Em livros anteriores, eu achei esse tema muito negligenciado, sempre foi uma breve menção e olhe lá. Mas o autor agrega bastante ao assunto, analisando os Æons passados (pelos seus cálculos seriam mais ou menos décadas) e como esses ciclos também passam pelo artista, religioso, cientista e mago. Então, pela sua linha de raciocínio, cada Æon tem como "tema" um desses, e depois que se passa pelos quatro, o ciclo se repete. Temos o exemplo do rápido desenvolvimento científico nos anos sessenta, e a fixação pelo sobrenatural e oculto da década seguinte. Esse capítulo pode ser um dos mais densos, mas ao mesmo tempo é imperdível. 

    Eu não poderia escrever essa resenha sem citar o capítulo a respeito de sacrifícios, esse é um dos mais interessantes. Uma vez alguém me falou como tudo o que é desejado - naturalmente, todos nós somos seres desejantes- exige um sacrifício. Se você quer dinheiro, sacrifica seu tempo, se quer comida, sacrifica seu dinheiro, etc. Os sacrifícios podem ser subjetivos ou aparentes. É subjetivo em religiões cristãs, onde se oferece tempo e abdicação de certos prazeres. É aparente no vodu, onde em muitos rituais, são oferecidos animais ou o próprio sofrimento (a partir da ingestão de pimentas próprias para a ritualística). Por isso gosto tanto desse capítulo, ele traz a tona essa noção e mostra maneiras do mago utilizar esses sacrifícios quando convém. 

    Chegando no fim, Dukes escreve algo que não pode faltar em livros de magia do Caos, que é a boa e velha reflexão a respeito de moralidade. Porém, o grande diferencial é que ele elabora sobre a moralidade existente no próprio mago, e é algo mais comum do que você pode imaginar. Mesmo depois de tantos anos na magia, magos podem ter dificuldades se desprender de pensamentos e conceitos baseados em pura moral. Afinal de contas, por pior que sejam, essas ideias são empurradas em nossas mentes sem mais nem menos desde pequenos. Então, para muitos magos, mudar esse tipo de pensamento é como reaprender a andar. Afinal, o mago está em um dilema, pois apesar de tentar se livrar da moral, ele precisa dela para conviver em sociedade, dessa forma, a única solução que encontram é eternamente usarem máscaras sociais, onde tira - com um certo receio - apenas para seus iguais.

    A última parte pode parecer chocante, por causa da maneira que o autor descreve o cristianismo como uma espécie de fascismo. Dukes, elabora que qualquer religião que exista um bem absoluto e incondicional, que exige que você lute contra um mal absoluto e incondicional, está fadado a um sistema baseado em perseguição e intolerância, pois ele dá aos seus fiéis uma "brecha" que pode ser usada para justificar todo o tipo de atrocidade que cometerem. Ou seja, fulano queimou ciclano na fogueira, para o redimir de seus pecados, dessa forma, fulano não está cometendo assassinato, apenas está "limpando" o mal da terra. Confesso que nunca tive essa reflexão, por isso considero essa como a cereja do bolo de um livro genial, que apesar de ter sido escrito há uns 40 anos, é revolucionário mesmo para os dias atuais.

O PDF desse livro (traduzido e em inglês) e outros está nesse grupo de Telegram: Gato Caótico

Sabia que eu faço divinação com oráculo há mais de 1o anos? Eu faço jogos com tarot, jogo da moedas e runas! Também faço feitiços para amor, saúde, prosperidade várias outras coisas! Caso tenha interesse me manda uma mensagem no Facebook, Morgana Soror para orçamentos!




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