O pensamento crítico é crucial para viver em sociedade. Ele é um pouco mais complicado do que simplesmente fazer uma cara azeda para algo e dizer que não gosta. É necessário uma análise profunda, observação que vai além do seu ponto de vista e um estudo no mínimo descente. Nietzsche é um dos melhores filósofos que elabora o tema. Infelizmente, muitos o conhecem apenas pela frase "Deus está morto" - Apesar que como sigo a magia do caos, eu diria algo como "Deus está vivo e ele trabalha para nós" haha- mas, apesar da fama, geralmente é uma frase mal interpretada, já vi pessoas falando que Nietzsche é o Kratos da filosofia, e o cara vai atrás dos deuses e mata eles - Aliás, uns anos atrás o Carlos Ruas fez uma animação muito engraçada sobre - assim como já vi gente falando que a frase significa que a humanidade não tem salvação e não sei o que mais. O filósofo, na verdade quer dizer que não precisamos de um ser acima de nós para ditar regras arbitrárias e absolutas onde o bem e o mal são claros como a água. Vivendo no mundo real, percebemos como tudo é muito cinza e o conceito de bem e mal é bem mais complexo no dia a dia. O desenvolvimento de um senso crítico adequado, ajuda a enxergar isso, ter empatia com o próximo e sair da sua pequena e insignificante bolha. Infelizmente, isso acaba sendo uma faca de dois gumes, pois a consciência sobre o mundo expande seus horizontes, dando a possibilidade de pensar independentemente e escolher a quem seguir, mas ao mesmo tempo essa consciência sobre a realidade pode ser muito desesperadora. Como Adão e Eva, que eram felizes no paraíso, mas foram expulsos por comer do fruto do conhecimento. Mas apesar de tudo, não existe coisa melhor do que ter a sensação de que você escolheu viver a sua maneira, e não porque te falaram para viver assim. Então, se você quer um conselho da boa e velha Gato Caótico, tenha a mente aberta e não fique satisfeito com qualquer merda que tem por aí!
Se a minha memória não me engana, eu já cheguei a mencionar sobre o inconsciente coletivo, mas acho que não elaborei devidamente. Antes da teoria ser adotada - e reformulada - por magos e religiosos, ela é originária de Carl Gustav Jung, você já deve ter ouvido sobre esse cara por algum coach maluquinho tentando vender cursos sobre alguma religião meio seita. Mas na verdade, ele foi um psicólogo que formulou muitas teorias durante a vida, chegando a trabalhar com Freud, mesmo que depois de um tempo, suas linhas tomaram rumos diferentes. Jung é quase sempre usado como base por religiosos e magos que sentem a necessidade de estabelecer algum tipo de fundamento científico - por mais frouxos que sejam. Quando estava bem no começo, na época em que tinha acabado de sair do catolicismo, estava aprendendo a jogar tarot, me recomendaram alguns livros, mas um deles pode exemplificar perfeitamente sobre o que estou falando: Jung e o Tarô, que está no meu top 3 piores livros que já li. Em resumo, o livro é desnecessariamente complexo e quando não tá viajando na maionese, tá enchendo linguiça, mas só se usa Jung como "base" para a autora poder dizer que as merdas que ela escreveu tiveram um aprofundamento prévio. Como resultado, até hoje sinto uma leve vontade de mascar vidro, só de lembrar que perdi tempo lendo essa porcaria. Enfim, se você está aprendendo a jogar tarot e te recomendaram esse livro, você vai perder tempo, pois em 10 anos jogando oráculos, nunca usei sequer uma referência do livro.
Mas, voltando ao assunto, eu vou falar um pouco sobre o inconsciente coletivo e a herança psíquica de Jung. Ambas as teorias são descritas no livro vermelho (vou colocar o PDF do livro no grupo de Telegram). O inconsciente coletivo, em resumo, seria aquela rede neural, que possui todo o conhecimento humano em forma de arquétipos. Seguindo esse conceito, certas "impressões" que se tem de algo ou alguém, que inicialmente parecem sem fundamento, são influência do tal inconsciente coletivo. A herança psíquica tem um conceito similar, porém, seria algo mais forte por se tratar de arquétipos que são transmitidas pela sua linhagem. Devo lembrar que ambas as teorias são incompletas. Jung não conseguiu completar esse estudo em vida, então ao ler o livro vermelho, você pode perceber que muita coisa fica no ar. O que, infelizmente é um prato cheio para os doidinhos-maluquinhos que querem vender curso haha. Na magia e religião, essa teoria já existia bem antes de Jung, mas nunca levou um nome em si e também existem muitas variações, mas geralmente é uma desculpa esfarrapada de eugenia. E Jung acaba sendo muito utilizado para dar um tipo de justificativa plausível para ser racista, misógino e capacitista. Um exemplo que essas merdas são bem antigas, é a própria bíblia, em Êxodo 34:7 "Que guarda a benevolência para milhares; que perdoa a iniquidade, e a transgressão, e o pecado; que não tem por inocente o culpado; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos, até a terceira e quarta geração." Ou no espiritismo, onde você tem uma espécie de "Karma" - eu coloco aspas, pois o karma na visão ocidental é distorcido para um caralho em comparação do conceito de karma original - pois algum parente seu, sua vida passada ou um parente seu que você foi na sua vida passada, fez algo e não recebeu a devida punição. Um colega que cresceu no espiritismo passou por isso. Ele é negro, e nos centros espíritas em que frequentava na infância diziam que ele nasceu negro pois foi um escravagista em sua vida passada e por isso precisa "sofrer" como negro, para assim cumprir com o seu karma. Imagina uma criança escutando que deve aceitar todo tipo de racismo em prol da iluminação espiritual! Claramente não são apenas religiões com parcelas cristãs que acreditam nessa ladainha, mas é bem mais visível. Aí você me fala "Querida Gato Caótico, você está se contradizendo, pois em um outro post, você falou que seguia essa teoria!". Sim, eu realmente sigo a teoria até certo ponto, mas não acho que meus ancestrais/vidas passadas vão ter força o suficiente para me ditar o que fazer, ou influenciar minha vida de qualquer forma que seja. Eu acredito que o inconsciente coletivo existe, e a magia do caos o usa conscientemente para mais resultados, mas não acredito que eu tenha nascido com qualquer qualidade ou defeito que eu tenha "puxado" dos meus ancestrais. Tudo se baseia em criação. Ninguém nasce bom ou mal, burro ou inteligente. Todos são criados para tal, mesmo que sem querer. Apenas depende da pessoa, quando cresce, decidir se vai mudar ou não. Sim, a mudança é algo complexo e demorado, principalmente quando não se sabe como mudar, então de qualquer forma sempre é bom se consultar com um psicólogo. Apesar desse ser um blog voltado a magia, eu fortemente aconselho a não usar apenas magia para enfrentar certos traumas, pois são coisas delicadas, profundas e difíceis de se lidar.
O problema é que esse tipo de lugar, sempre atrai pessoas vulneráveis por diversas razões. Muitas dessas pessoas precisam de um consolo que não conseguiram encontrar com ninguém, então, eles de maneira dócil as "acolhem". E quando menos percebem, a vidas inteira delas gira em torno de uma seita de eugenia. Essas pessoas vão se afastando do mundo real, com o sentimento de que são incompreendidas por outros e que possuem a "real verdade". Dessa forma, todo e qualquer tipo de senso crítico vai pelos ares, pois a emoção sempre acaba vencendo a razão e adotando uma "verdade" falha, isso é realmente algo muito triste, pois por mais que seja fácil de entrar, é realmente muito difícil de sair.
Enquanto escrevia esse post, um rapaz que eu sigo, chamado Leonardo Pinheiro, estava contando suas experiências no espiritismo por rede social. Como se encaixava com o assunto, pedi que me contasse mais sobre:
"Então, minha experiência com o kardecismo foi péssima, porém inúmeras coisas que ocorreram lá dentro eu mais presenciei do que fui vítima de fato, já que nos 4 anos que frequentei eu ainda não tinha me descoberto como bissexual e uma pessoa autista. O meu gatilho pra frequentar foi o mesmo de 90% das pessoas, eu tinha perdido uma pessoa muito importante e eu ainda era bem jovem e tinha várias dúvidas em relação a morte. Então minha tia e eu começamos a frequentar um centro espírita lá da tijuca onde morei muito tempo. No começo era mil maravilhas, pra falar verdade eu não tive problema algum lá dentro durante um ano inteiro, nessa época fiz uma cirurgia espiritual na minha perna esquerda e comecei a frequentar grupos de evangelização para jovens enquanto minha tia frequentava o de adultos. Com o gancho da evangelização, comecei a adentrar a fundo a literatura e mídia audiovisual espírita, nesse ponto eu já discordava de algumas coisas porém eu ainda gostava do ambiente e das pessoas. Mas a partir do segundo ano, tudo começou a mudar. Já tinha 15 pra 16 anos nessa época então me colocaram no grupo mais avançado com muito mais conteúdo pra evangelizar. Nessa questão, eu ia no horário da noite e as pessoas costumam ser atendidas mais ou menos no horário que eu ia, assim que eu saia as pessoas conversavam e geralmente os médiuns que ficavam para atender as pessoas também puxavam alguns assuntos. Esses assuntos chegavam desde culpar a vítima por um momento de abuso fisico e emocional até falar atrocidades sobre minorias e como eu tinha dito no twitter. Eles falavam com um sorriso e uma calma ardente sobre essas questões como se tivessem jogando a mais pura verdade absoluta pra uma pessoa já ferida emocionante por N questões. O que era mais horrível em tudo isso, era o fato de muita gente ter aceitado isso como real, se colocando como culpados buscando segundas chances pra "evoluir", já não me sentia bem de verdade. Por incrível que pareça a primeira pessoa que parou de frequentar o espaço foi minha tia, eu fiquei mais um ano, o que seria o último na verdade. Eu não sei exatamente o motivo de eu ainda ter ficado, mas ainda frequentava a evangelização e eu sempre fui muito curioso sobre vários assuntos e isso me levava a querer saber mais e mais, então me dediquei a isso, estudar e me embasar. Fiz pesquisas sobre questões com reencarnação e cartas psicografadas, evolução espiritual, pensadores kardecistas e nada fazia sentido, também li vários artigos ligando pessoas mortas em incidentes criminosos e várias pessoas horríveis pela história justificando mortes como karma e perdão espiritual. Lendo isso tomei a decisão definitiva de nunca mais frequentar esse local novamente, e assim eu fiz. Hoje em dia não moro mais na Tijuca e sim em Madureira, mas morava bastante perto do centro espírita, e sempre que passava por lá pra ir a escola ou até trabalhar ainda sentia energias péssimas já que me lembrava de tudo, a tal cirurgia espiritual não deu certo, sendo que tive que ir aos meios tradicionais depois, porém, como fizeram minha cabeça pra pensar que a culpa de não ter funcionado era minha eu acabei deixando pra lá por vergonha. Hoje frequento a religião de matriz africana que eles tanto demonizam, e me sinto bem mais seguro e acolhido por todes que frequentam. Foi uma experiência horrível, mas eu prefiro sempre falar sobre para que pessoas não passem pelo o que passei, do que deixar tudo em baixo dos panos e ter mais pessoas enganadas por essas pessoas sem nenhum pingo de amor, humanidade e caridade como dizem tanto ter e pregar."
É um relato pesado, mas sincero. Você vê que esse tipo de coisa vai muito além da religião? Esse tipo de coisa vai te sugando aos poucos, com pequenas ações e palavras, até que você seja completamente engolido e se sinta culpado por coisas mínimas. Na grande maioria dos casos, eles não querem apenas sua fé, querem seu suado dinheirinho. Tiram de quem já não tem muito, é sempre algo sútil, coisas como, antepassados ou guias enviando mensagens sobre seu karma, que só serão revelados depois do bom e velho pix. E você dá o que eles pedem, para acabar com a culpa e a desgraça por algo que você nem chegou a fazer. A pior parte de tudo isso, é que esse argumento de merda, é usado para justificar atos criminosos. Aqui eu peguei um trecho de um post referente a tragédia da boate Kiss (vou colocar o post no grupo de Telegram):
"Quem sabe se os Espíritos que desencarnaram na boate Kiss, por inalação de fumaça tóxica, foram aqueles que conduziram nossos irmãos judeus, poloneses e russos para morrerem nas câmaras de gás e nos fornos crematórios dos campos de concentração durante a segunda grande guerra mundial?".
Imagina você perder seu filho em uma tragédia resultante da irresponsabilidade e ganância alheia, e ver alguém justificando tal ato como uma justiça karmica pois seu filho mereceu? Isso abre precedentes para todo tipo de conduta criminosa. Afinal, se seguirmos essa lógica infeliz, podemos ser racistas pois os negros são todos criminosos em suas vidas passadas, podemos estuprar e matar mulheres, pois em suas vidas passadas elas fizeram o mesmo, e por aí vai. Você entende como um simples post pode desencadear em um pensamento que flerta perigosamente com a eugenia e a misoginia? E eu nem cheguei a citar, certas comunidades que pregam o "amor ao próximo" mas são abertamente antissemitas. Esse tipo de comportamento que sempre parece inocente, escala para algo muito maior e perigoso.
Eu sei que geralmente escrevo sobre livros, mas esse é um post que serve também como alerta, pois as pessoas citadas conseguiram sair dessa, mas existem aqueles que estão passando por isso e nem sabem, que ficam num ciclo eterno de sofrimento e desilusão por causa desses psicopatas que usam a religião e a vulnerabilidade alheia para lucrar e ter seguidores fiéis.
Agora sobra uma questão: Se a herança psíquica e o inconsciente coletivo não tem força o suficiente para nos moldar, por que somos o que somos?
Como eu falei antes, é tudo graças a criação. Mas como você sabe, minhas fontes não são apenas as vozes da minha cabeça, então vamos falar de um psicólogo que me ajudou a entender sobre o assunto, seu nome é Jean Piaget. Para escrever esse post, eu li o livro Psicologia e Epistemologia: Por Uma Teoria Do Conhecimento. Piaget não tem a mesma fama que Freud ou Jung, mas fez trabalhos maravilhosos na área da psicologia infantil. O autor deu apenas o pontapé inicial, mas é impossível falar que ele não quebrou certos estigmas - principalmente considerando que a maioria das pessoas esquecem que crianças, querendo ou não, são seres humanos. Quando li SSOTBME, percebi algumas referências de Piaget no conceito artista-cientista-religioso-mago e cheguei a trocar mensagens com Ramsey Dukes. E de fato, ele admite que teve influências de Piaget para escrever sua obra. Vou tentar dar uma resumida sobre o trabalho de Piaget, mas vou deixar alguns artigos que explicam melhor no grupo de Telegram, pois o livro em si é muito difícil de achar. Depois de muita busca, encontrei o livro em um sebo - Foi difícil de achar pois tentei achar livros do próprio autor, e não de outros analisando o trabalho do autor.
Para Piaget, o desenvolvimento intelectual começa na infância - eu sei que hoje em dia é uma coisa meio óbvia, mas na época acreditava-se que só aqueles que já sabiam falar possuíam capacidades cognitivas - e crescer é uma forma de reorganizar a própria inteligência, de forma a ter mais possibilidades de assimilação, ou seja, quando você vai amadurecendo, você reorganiza sua inteligência para poder se adaptar a novos conhecimentos, dando um exemplo meio chulo, a nossa inteligência funciona como um organograma, que abre variáveis a cada novo conhecimento adquirido, pois o objeto de conhecimento oferece resistência ao assimilar, já que exige a reorganização. Para esse rolê todo, Piaget criou o termo "Equilibração", porque o cérebro passa pelo processo Equilíbrio (antes do novo conhecimento), Desequilíbrio (durante a assimilação do novo conhecimento) e Reequilíbrio (adequação do novo conhecimento). Para Piaget, todos passamos na infância por quatro fases de desenvolvimento do conhecimento; o estágio sensório-motor, o estágio pré-operatório, o estágio das operações concretas e o estágio operatório formal.
No primeiro estágio, não são feitas ações, já se analisa a reversibilidade de ações e constituição de variações. É um estágio importante, pois com a noção de reversibilidade, já começa o desenvolvimento da lógica. Também é desenvolvido o interesse pelo outro, a inteligência pré verbal e a noção de tempo e espaço. No estágio pré-operatório, já é desenvolvido o pensamento com linguagem, inteligência prática, a socialização, a diferença entre o signo e o significado, uma introdução a moralidade e é desenvolvido o egocentrismo - para piaget, o egocentrismo nesse contexto tem o significado da criança perceber o ponto de vista do outro, a partir do próprio. No estágio das operações concretas, a criança já entende a reversibilidade de ações e pode operar de tal modo e possui inteligência operacional concreta, mas condicional. E por último, no estágio operatório formal, a criança já possui raciocínio formal e abstrato, pode realizar operações sobre objetos e enunciados verbais.
No fim das contas, Piaget acaba mostrando que tudo depende da sua criação - Se você assim como eu, não se sentiu satisfeito com Piaget, recomendo Vigotski e Wallon, realmente são leituras valiosas - e quando você tem consciência disso, é muito mais fácil lidar com paradigmas que segue, mas não entende bem a razão, e assim, escolher conscientemente seguir ou quebrar. Por isso acho importante citar esse autor. Então, se quer outro conselho não solicitado da boa e velha Gato Caótico, você não merece sentir culpa ou resolver nada que você tenha feito na sua suposta vida passada e se você faz uma merda na sua vida atual, assuma a responsabilidade e resolva sem culpar os seus "Karmas".
O livro e os artigos que comentei no post estão nesse grupo de Telegram: Gato Caótico
Sabia que eu faço divinação com oráculo há mais de 1o anos? Eu faço jogos com tarot, jogo de moedas e runas! Também faço feitiços para amor, saúde, prosperidade e várias outras coisas! Caso tenha interesse me manda uma mensagem no Facebook, Morgana Soror para orçamentos!






